Chegou quase escondido à Netflix, mas filme com Cillian Murphy já é o mais assistido de 2026
09/04/2026
Sem alarde, sem campanha barulhenta e com cara de lançamento que foi se espalhando no boca a boca, “Peaky Blinders: O Homem Imortal” encontrou espaço rápido na Netflix e recolocou Tommy Shelby no centro da conversa.
O longa dirigido por Tom Harper e escrito por Steven Knight traz Cillian Murphy de volta ao papel mais marcante de sua carreira, agora cercado por nomes como Barry Keoghan, Rebecca Ferguson e Tim Roth, numa história que troca qualquer clima de reencontro nostálgico por um ambiente mais duro, político e instável.
A trama leva Tommy para 1940, quando a guerra já redefiniu prioridades, alianças e até o funcionamento do crime organizado. Logo de início, o personagem aparece distante de Birmingham, vivendo um afastamento que tem menos de descanso e mais de esgotamento.

Mesmo longe, ele continua preso ao peso do sobrenome Shelby, que segue circulando por esquemas ilegais ligados a falsificação de dinheiro e interesses conectados ao avanço nazista. O filme acerta ao mostrar que esse retorno começa torto: Tommy está fora de lugar, fora de tempo e sem o domínio que um dia teve.
Quando Birmingham volta ao quadro, a cidade surge transformada. O território que antes parecia responder ao nome Shelby agora opera em outro ritmo, com novas disputas, novas urgências e gente ocupando espaços que antes pertenciam a Tommy.
Ada Shelby funciona como a ponte entre esse isolamento e a volta forçada ao que ele deixou para trás. O contraste entre o homem recolhido, escrevendo e revendo o passado, e a cidade que seguiu em frente ajuda a criar uma das ideias mais interessantes do longa: Tommy retorna, mas já não encontra o mesmo mundo esperando por ele.

Esse choque fica ainda mais forte com a presença de Duke Shelby, que entra na narrativa como peça decisiva, e não como simples continuação do legado da família.
O filme trata Duke como alguém que já entendeu o mecanismo do poder e aprendeu a agir sem depender do pai. A partir daí, a história ganha um conflito mais direto e mais pessoal: Tommy volta justamente quando já existe outra figura ocupando o centro da engrenagem.
O problema deixa de ser só estratégico e passa a ser íntimo, porque a disputa envolve autoridade, ausência e ressentimento acumulado.
A situação se complica de vez quando Duke se aproxima de Beckett, agente simpático ao nazismo e ligado ao circuito de libras falsas. Com isso, o filme amplia seu alcance e mistura o crime de rua com o peso político da guerra.
O que está em jogo já não é só o comando de Birmingham, mas a dimensão do estrago que a marca Shelby ainda pode causar. Essa conexão entre conflito familiar, articulação criminosa e instabilidade histórica dá ao roteiro uma base mais tensa e menos decorativa.

Rebecca Ferguson entra nesse cenário como Kaulo, personagem associada às raízes romani de Tommy e também próxima da órbita de Duke. A função dela na trama vai além de um elemento enigmático: Kaulo puxa Tommy de volta para uma parte de si que ele nunca conseguiu deixar completamente para trás.
Em vez de servir como detalhe exótico, ela reforça a relação constante do protagonista com suas origens, suas culpas e os rastros que ele carrega. Isso dá ao filme uma camada emocional mais interessante do que qualquer tentativa de transformar Tommy numa figura intocável.
Tom Harper filma esse material com um peso visual que os fãs da franquia vão reconhecer de imediato. As caminhadas em câmera lenta, o retorno de “Red Right Hand” e a entrada de Tommy em Birmingham com forte carga simbólica mostram que o longa preserva marcas conhecidas.
A diferença é que, aqui, esses recursos funcionam melhor quando estão ligados ao desgaste do personagem e ao estado da cidade, e não só à obrigação de repetir uma estética que o público já conhece. O estilo continua presente, mas ganha mais função quando conversa com o contexto da guerra e com o cansaço evidente de Tommy.

A ausência de Arthur Shelby também altera o clima do filme. Sem ele, reencontros, alianças e memórias antigas perdem parte da energia caótica que sempre ajudou a definir a família.
Isso muda o peso emocional da narrativa e deixa Tommy ainda mais isolado dentro do próprio círculo. O longa parece entender bem esse vazio e usa essa falta para tornar a volta do protagonista menos triunfal e mais melancólica.
No fim das contas, “Peaky Blinders: O Homem Imortal” encontra seu melhor tom quando evita enfeitar Tommy Shelby. O personagem segue atravessado por perdas, traumas de guerra e um tipo de exaustão que Cillian Murphy traduz com contenção e firmeza.
O filme funciona mais quando encosta nessa ruína do que quando tenta transformar seu protagonista em lenda. Entre o exílio, o avanço de Duke e a ameaça representada por Beckett, o longa constrói uma volta amarga, tensa e marcada por uma sensação constante de atraso — como se Tommy estivesse sempre chegando tarde demais ao próprio nome.

